Culto a imagens: ver Cristo se comparar à serpente de bronze pode deixar muito cristão bugado
O que mais tem por aí são cristãos que já se consideram salvos e se sentem superiores aos católicos – a quem chamam de idólatras – pelo fato de não prestarem culto a imagens de santos. Mas o que Jesus Cristo disse sobre as imagens?
Como já observamos em outro post, em NENHUM dos quatro Evangelhos Jesus cita de forma negativa as imagens religiosas. Isso é especialmente interessante, se considerarmos que certos cristãos praticamente só falam disso, e colocam tanto foco nessa questão!…
Mesmo quando enumerou os Mandamentos (como em Mt 22,36-38, Mc 12,28-30 e Mt 19,17-19), Jesus não citou a questão das imagens. Será que isso não leva ninguém a desconfiar que a proibição ao uso de imagens não é parte essencial e inalienável dos Dez Mandamentos?
“Se queres entrar na vida, observa os mandamentos. Quais?, perguntou ele. Jesus respondeu: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo.” (Mt 19,17-19)
E a única vez – A ÚNICA! – em que a Bíblia relata o Cristo se referindo alguma imagem religiosa, Ele não faz uma condenação, mas sim LIGA A SUA PESSOA AO SIMBOLISMO DESSA IMAGEM: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem, para que todo homem que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3,14-15).
Trata-se da serpente de bronze que Deus mandou Moisés fabricar e fixar sobre um poste. Quando os israelitas, picados por serpentes venenosas, olhavam para a serpente de bronze, se salvavam da morte. Cristo se compara a essa serpente, porque ao adorarem o Deus Crucificado, os homens envenenados pelo pecado se livram da morte eterna da alma.
Jesus se comparou a uma imagem feita por mãos humanas! Tenho certeza de que muitos irmãos não-católicos, mesmo já tendo lido essa passagem mil vezes, jamais tinham parado para ver a realidade sob este ângulo. Prevejo angústia em certos coraçõezinhos…
Essa Palavra saída da boca de Cristo basta para indicar que o bom uso das imagens religiosas é possivel. Se as imagens fossem más, vocês acham que Jesus teria dito – como disse – que foi bem representado por uma delas, gente?
A PROIBIÇÃO DO USO DE IMAGENS FOI CIRCUNSTANCIAL
“Ain, mas Deus mandou destruir a serpente de bronze, porque os israelitas começaram a idolatrá-la”. Essa objeção é fácil de detonar. Deus conhece o futuro, certo? Obviamente, Ele sabia que, anos depois, o sentido da imagem da serpente seria pervertido e ela seria idolatrada. Ainda assim, ordenou a confecção da imagem e a utilizou como canal para distribuir graças ao povo de Israel.
Tal decisão da parte de Deus só se justifica por uma lógica: a de que o posterior efeito colateral da confusão idólatra era inferior ao bem que a imagem da serpente de bronze faria ao povo (não só com a cura, mas também com sua força simbólica, prefigurando o Messias levantado na cruz).
Isso evidencia que Deus proibiu as imagens de forma CIRCUNSTANCIAL (
já explicamos aqui no blog que algumas leis da Antiga Aliança se confirmam na Nova Aliança, são eternas; enquanto outras se tornam obsoletas – pois eram circunstanciais, ou seja, tinham validade somente em dada circunstância). Naquele momento específico da história do povo de Deus, portanto, não convinha a existência de imagens, pois o povo confundia entre a fé no verdadeiro Deus e a fé em deuses criados pela imaginação humana. Era uma realidade cultural desfavorável ao uso de imagens.
Mas se Deus, para determinado momento da História da Salvação, considerou que a imagem religiosa era boa e conveniente para o povo, Ele não poderia, em outro momento da História da Salvação, novamente considerar que tal instrumento deveria ser novamente usado para o bem das almas?
A resposta é: SIM! Pois foi isso que aconteceu, gradualmente, na vida da Igreja primitiva.
AS IMAGENS DE SANTOS NA IGREJA PRIMITIVA
As numerosas imagens de personagens bíblicos nas catacumbas mostram que a comunidade cristã já não levava ao pé da letra a proibição exposta no Êxodo, de não fazer imagens. Esses afrescos (muitos deles datados dos séculos II e III) eram cultuados como os católicos fazem hoje? Não sabemos. Mas a sua existência sinaliza que a interpretação sobre a questão da confecção de imagens estava mudando no coração da Igreja.
No Novo Testamento, permanece a condenação eterna à idolatria. E o que isso significa? Que o cristão não pode participar do culto de outras religiões, nem deve confundir o Deus Todo-Poderoso com o sol, as montanhas, os animais, e adorar essas coisas como se fossem Deus. Por isso, São Paulo diz:
“Mudaram a majestade de Deus incorruptível em representações e figuras de homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis. (…) Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém!” (Rom 1,23-25)

Até o século IV, o cristianismo era proibido pelo Império Romano. Não havia templos em que se pudesse desenvolver a arte religiosa, e seria muito arriscado ter imagens religiosas em casa.
Esse cenário muda radicalmente a partir do momento em que o Imperador Constantino, no ano 313, deu liberdade de culto aos cristãos. Eles puderam, então, erguer os seus primeiros templos, onde começou a se desenvolver a arte religiosa, inclusive por meio de esculturas.
O Papa, com o poder das chaves que Jesus entregou a Pedro, ligou as imagens de santos aos Céus, afirmando a sua utilidade para a edificação das almas. Ao fazer isso, ele não contrariou a verdade que a Bíblia revela (ele não pode fazer isso!), mas sim deu a essa questão a correta interpretação.